DESTAQUE EM CONGONHAS

Mês da Luta Antimanicomial cumpriu seu papel de aproximar pacientes da sociedade

6 de junho de 2019

De maio a junho, a Unidade Regional de Saúde Mental (URSM) promoveu eventos terapêuticos e mobilizadores em prol desta luta antimanicomial em Congonhas. As atividades foram realizadas em parceria com o Programa de Saúde da Família (PSF), Núcleo de Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (Nasf-AB), Museu de Congonhas, Museu da Imagem e da Memória, além da Câmara Municipal de Congonhas, Centro de Referência do Idoso (CRI), Associação São Vicente de Paula, o Sítio do Zezeca, o Grupo Iuna de Capoeira Angola e a Casa de Arte Boca de Cena, sendo que os dois últimos, após esta experiência, tornaram-se parceiros fixos da URSM.

Na avaliação da coordenadora do CAPS II, Jamile Alves Pereira, estas atividades exercitaram corpo, mente e o lado cidadão destes indivíduos. “Conviver com diversos segmentos da sociedade, contribui para ampliar o repertório social e para romper estigmas dessas pessoas. Com isso, elas deram mais um passo para assumirem o papel delas na sociedade e, em diversas situações, apresentaram-se como protagonistas. A luta antimanicomial pertence, primeiro, a quem tem algum problema mental e, durante o mês de comemorações, elas puderam entender e falar sobre seus direitos”.

Uma roda de conversa na Câmara Municipal contou com profissionais e usuários dos serviços de saúde mental, outros representantes das secretarias de Saúde, da Educação, da SEDAS e do poder legislativo. A psicóloga Ana Carolina Macedo de Araújo Rocha, referência de Saúde Mental da Superintendência Regional de Saúde, sediada em Barbacena, ministrou palestra, abordando o novo modelo de cuidado com as pessoas que possuem sofrimento mental.

Ana Carolina discorreu sobre todo o período de sofrimento pelo qual passavam pacientes que não recebiam o tratamento adequado, até chegar aos dias de hoje, quando há métodos que podem reabilitar o indivíduo. “Os usuários e pacientes da unidade de saúde mental se uniram para denunciarem o mal que o tipo de tratamento disponibilizado no Hospital Psiquiátrico em Barbacena no passado e tantos outros pelo Brasil fazia a essas pessoas. Tudo isso foi registrado em um documentário intitulado “Em nome da razão” [do qual um trecho foi exibido durante o evento]. É por causa deste movimento, surgiu a luta antimanicomial. Naquela época, era considerado mais fácil levar para o interior daqueles muros tudo aquilo que, segundo algumas pessoas, não cabia aqui fora. Pessoas com problemas mentais ou de outra natureza eram internadas em locais como aquele e perdiam sua autonomia. Essa instituições deixavam muita marca naquelas vidas, que perdiam seus nomes, não mais comemoravam o aniversário, nem mesmo conservavam hábitos comuns do dia a dia como  usar papel higiênico, perdiam o conhecimento sobre o que é a cidade e a vida. Então foi elaborada toda uma estratégia de rede de atenção psicossocial para poder mudar o modelo de cuidado. Atualmente há diversas formas de reabilitação do paciente. Surgiu a Lei 10.216 que trata dos direitos das pessoas em sofrimento mental e que redireciona todo o modelo de cuidado, que é baseado na humanização. O desenvolvimento da Política Estadual de Saúde Mental depende do trabalho intersetorial de diversos equipamentos do serviço público, como a saúde (Unidade Regional de Saúde Mental –  CAPS II, CAPS AD, Ambulatório e CERPAI – e o posto de saúde do bairro); assistência social  (CRAS, CREAS, CRM, CRI); esporte, educação, cultura e  iniciativa privada, como o comércio, para a reinserção do indivíduo na sociedade. Mas este direito vem atrelado à responsabilidade. Cada indivíduo tem direitos, entre estes o de ter saúde, mas precisa ser co-responsável por ela. Ao contrário de como acontecia na época do Hospital Colônia de Barbacena, atualmente há uma divisão de responsabilidades entre a unidade de saúde mental, os hospitais psiquiátricos e o paciente. Agora o método de tratamento é baseado na desinstitucionalização, que significa retirar a pessoa do manicômio, mas retirar do manicômio não é somente retirar de locais físicos, é ajudá-la a evitar pensamentos que a fazem se fechar, criando medos e preconceitos. Elas precisam se libertar, abrir seus horizontes, ocuparem os espaços públicos, precisam de cuidado, e não somente de tutela. Além de assumirem parte da responsabilidade pela sua autonomia, precisam de liberdade. E as equipes dos serviços de Saúde Mental devem conhecer bem o paciente para o ajudar a atingir esta autonomia, superando estigmas”, considerou Ana Carolina.

Depois da roda de conversa, a Oficina Terapêutica de Teatro do CAPS II encenou a peça teatral “Passarinho fora da gaiola”. Foi lida uma carta aberta dos usuários da URSM destinada às esferas de Governo, solicitando a manutenção e aperfeiçoamento destes serviços.

Houve apresentação musical do ex-paciente do CAPS AD, Valdeci Ferreira Brandino, que interpretou canções que tangenciam o tema das comemorações, como “Maluco Beleza” e “Tente outra vez”. “O Valdeci me disse durante o processo de alta da permanência dia que estava com medo de deixar o CAPS AD, então respondi que ele devia ir, porque a vida dele acontece lá fora, mas que, se ele precisasse, nós estaríamos aqui à disposição dele, porque nosso papel é o do suporte e do cuidado”, comenta a coordenadora do CAPS AD, Suzi Silva.

“Fiquei 5 meses no CAPS AD me tratando de depressão e do uso de álcool, ainda não estou 100%, mas esta equipe sensacional me acolheu e me ajudou a alcançar este estágio de recuperação. Agradeço a eles e fico emocionado. Sou contratado para todos os eventos do CAPS AD, Carnaval, Natal eu me apresento também em outras festas, como aniversários”, testemunhou Valdeci.

 

 

Outros pacientes estão se superando e conseguem demonstrar seus talentos, servindo de exemplo para os colegas e tantas pessoas que passam por dificuldades parecidas. Os trabalhos deles ficaram expostos no locais que receberam atividades, como os museus e a Câmara Municipal. Um deles, usuário do CAPS II, I. M. C. autografou seu livro mais recente dos dois que já escreveu. “Eu já escrevia desde novo, gosto de temas religiosos, isso ajuda em meu tratamento. Recebi o apoio da equipe do CAPS II, que digitou tudo e imprimiu pra mim. Este processo está me ajudando a melhorar a leitura, a escrita e a minha mente”.

Outro paciente do CAPS II, R. A., exercita outro dom, o da pintura. “Desde criança, eu fazia uns rabiscos no papel e a coisa foi evoluindo. A professora Edite, da Uniarte, me deu algumas aulas. Esta tela do palhaço veio à mente de repente, peguei a tinta guache e pronto. Noutra, está a planta copo de leite. Estes quadros eu deixo no CAPS e em casa. Por ora, é só um passa tempo, é uma atividade terapêutica que está me ajudando muito. Os quadros foram também para o museu, isso é muito gratificante, saber que as pessoas estão gostando da minha arte”, reconheceu.

 Oficinas terapêuticas

“Quando os pacientes dos serviços da URSM ensinam o que aprenderam, eles se sentem capazes e gratificados. Acabam superando preconceitos, como o de serem pessoas alienadas, que, por isso, não dariam conta de fazer as coisas. Percebemos em cada oficina que os pacientes ganharam autoestima por serem os protagonistas das atividades, ao ensinarem os participantes e não estarem ali só para aprenderem”, comenta a coordenadora do CAPS II, Jamile Alves Pereira.

Oficina de Capoeira

Vivência e Integração pela Capoeira Angola foi a oficina ministrada por Daniel Leandro Abreu de Matos, do Grupo Iuna e assistente social do CAPS II na: Casa de Arte Boca de Cena. Estes são dois novos parceiros fixos da Unidade Regional de Saúde Mental.

Conta Daniel que “a história da Capoeira Angola apresenta similaridades com o processo da luta antimanicomial. Trata da luta contra os preconceitos, contra estigmas enraízados na sociedade. Possibilitar uma vivência lúdica, de integração através da Capoeira Angola, resgatando o processo histórico da Capoeira e da Luta Antimanicomial, teve como objetivo a oportunidade para que os participantes pudessem reavaliar esse processo. A vivência contribuiu para a ocupação de um importante espaço de arte no município de Congonhas. Os participantes puderam perceber que possuem possibilidades, que são capazes. Houve depoimentos positivos, de auto valorização, de resgate identitário, de libertação de impressões limitantes. Esperamos que a parceria possa contribuir com socialização dos pacientes, o sentido de pertencimento à comunidade, à cidade, estimular a troca de conhecimentos e possibilitar novas experiências aos pacientes, contribuindo assim para seu processo de auto conhecimento, auto valorização, (re)significando o seu lugar na cidade/comunidade”.

Oficina Arte em Bambu 

Morador do Campinho e ex-paciente do CAPS AD, o senhor José Alves ministrou a Oficina Arte em Bambu para pacientes daquele serviço e também do CAPS II, na sede da Sociedade São Vicente de Paula.  Ele não faz uso de bebidas há três anos e encontrou na arte em bambu uma ferramenta que o ajudou a se livrar do vício, já que sua autoestima aumentou com o resultado de seu trabalho.

 

 

Oficina de Culinária

Esta é uma das oficinas da URSM que mais contribuem para a reinserção social das pacientes. Através dela, as mulheres aprenderam um ofício que gera dinheiro para elas e a manutenção da própria oficina. Agora conseguem ensinar outras mulheres. As pacientes D. V., J. A., R. C. e M. L. ensinaram às demais participantes a fazer a Rosca Construção, campeã do Festival da Quitanda, em 2008, enquanto a enfermeira Luciana, do CAPS II, mostrou como preparar um rocambole.

 

 

Oficina de Memória

Atividades como tentar descascar uma bala somente com a mão não dominante, que geralmente é a esquerda, a formação de palavras com letras fora de ordem na cartolina são exemplos de atividades feitas por usuários do CAPS AD, CAPS II e CRAS Região Alvorada no encerramento do Mês da Luta Antimanicomial nessa quarta-feira, 5 de junho, durante a Oficina de Memória. Segundo Lúcia Ferreira Lobo e Silva, pedagoga pós-graduada em Técnicas Pedagógicas, pesquisadora  dos  distúrbios  da memória, professora habilitada em Psicologia Cognitiva, os lapsos de memória são sinais de que não estamos cuidando dela. É para isso que chamo atenção durante esta conversa com as pessoas. A neurociência estuda o cérebro, a PNL [Programação Neurolinguística] serve para programá-lo, apresentando uma série de ferramentas que podemos utilizar para melhorar nossa memória. Se cuidamos da saúde, prolongamos nosso tempo de vida; da mesma forma, se cuidamos da saúde de nossa memória, aumentamos a vida útil dela. Quando começamos a ficar com muito déficit de memória, as pessoas e nós mesmos vamos nos deixando de lado. Memória é como uma garrafa de água, se você a só consome, e não a repõe, o reservatório vai se esvaziando. Precisamos de oferecer conteúdo a ela. É preciso também evitar barreiras que construímos em nossas mentes, que surgem por crenças limitantes que alimentamos desde criança. Por exemplo, algumas pessoas não participaram desta oficina pela crença de que, no dia de frio, não é bom sair de casa. Memória você não pode só usar, é preciso exercitá-la. A cada 100 pessoas, estatisticamente falando, somente 1,5 cuida da memória, segundo o Instituto do Cérebro, criado pelo brasileiro gaúcho, Ivan Esquerdo. Ao descascar uma bala com a mão não dominante, a pessoa apresenta muita dificuldade, porque o cérebro está fazendo conexões que não têm costume de fazer. Temos os hemisférios cerebrais direito e esquerdo e cada um deles é responsável pelos movimentos do lado oposto do corpo. O movimento depende da psicomotricidade, os circuitos neuronais são como fiapos de cabelo. Nesta atividade, eles, estimulados, vibram até se religarem para produzir uma memória melhor. Nunca que você vai ter uma memória eficaz se você não convive em grupo, não sai de casa, se tem preguiça de conversar, aí fica difícil”, explicou.

O Mês da Luta Antimanicomial dedicou uma semana aos “Movimentos de Intervenção nos Espaços Públicos para Conscientização da Comunidade”. Profissionais e usuários do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II e do Centro de Atenção Psicossocial ao Usuário de Álcool e outras Drogas (CAPS AD) levaram aos museus, a outros prédios públicos, praças, ruas e ao comércio a mensagem de que é necessário o diálogo para conscientizar instituições e cidadãos de que pessoas com transtornos mentais não representam ameaça ou risco ao círculo social. Ao contrário, que estar em sociedade é um fator imprescindível para recuperação delas. Funcionários e frequentadores dos locais visitados receberam muitos bem os participantes desta grande campanha. Todas as atividades contaram com a participação determinante da equipe do Educativo dos museus.

 

 

 

 

 

 

 

 

A programação do Mês da Luta Antimanicomial também contou com eventos internos dos serviços da URSM, voltados para os pacientes, tais como show de talentos (de pacientes e profissionais), oficinas de artesanato, atividade física nas Unidades Básicas de Saúde, Sessão de Cinema com o filme “Nise: O Coração da Loucura”.

 

Durante o 19º Festival da Quitanda, pacientes e profissionais da URSM comercializaram delícias preparadas por eles na “Barraca dos Sabores”.

 

Outra atividade que agradou muito foi o passeio ao Sítio do Zezeca, onde assistiram à apresentação de uma parte do espetáculo teatral “Ressurreição de Cristo”, encenado pelo Grupo Dez Pras Oito, acompanhado de dois pacientes do CAPS II, e comeram pizza servida pelos profissionais daquele serviço de saúde.

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