Performance “S!NOS DOBRADOS” homenageia ofício dos sineiros e convida o público a interação
28 de julho de 2025A linguagem dos sinos é patrimônio imaterial brasileiro registrado pelo Iphan, o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O toque deste elemento essencial nos templos católicos comunica à comunidade os diversos ritos e celebrações ali realizados. A 30ª edição do Festival de Inverno de Congonhas abriu espaço para que a Performance de Arte Visual “S!NOS DOBRADOS”, assinada pelo artista plástico e músico compositor congonhense, Marcelo Heidenreich, de forma poética, ampliasse essas possibilidades de se expressar dos sinos, aguçando diversos sentidos dos visitantes e os convidando, automaticamente, a participar dela. A primeira experiência havia ocorrido no Festival de Inverno de 2023 em Ouro Preto – MG, na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, durante o Festival de Inverno daquela cidade. Agora ele foi convidado a repetir a iniciativa, na Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, nesses sábado e domingo (26 e 27/07).
Nossa reportagem conversou com artista que explicou como surgiu a ideia de criar a performance, qual é o conceito e se o resultado tem sido o esperado.
Como surgiu a ideia de publicar poema desta forma?
Marcelo Heidenreich – Eu já vinha fazendo esta série de poemas que brincam com a palavra “sinos”, que está dentro de outras palavras, como “ensino”. Depois decidi pensar em um suporte para estes poemas, porque o suporte é uma parte significante dentro do processo. Muitas pessoas pensam que poetas lançam sua obra somente em livros. E não. Existem várias formas de se publicá-las: desde um grafite na parede a uma postagem no Instagram, até em disco. É a mídia, que vem de meio. Escolhi este, que é uma bobina de polipropeno, envelopado com papelão, com 27 metros de comprimento.
Que sentidos você busca aguçar no observador com esta performance?
Marcelo Heidenreich – Tudo que está aqui, nada é puramente estético. Tudo tem um fator significante. O amarelo remete à cor dos sinos e a performance homenageia os sineiros de Minas Gerais [cujo ofício é reconhecido como patrimônio imaterial pelo IPHAN], de onde se extraiu muito ouro.
No primeiro poema visto próximo à torre esquerda da Basílica, transformo o “i” em “!”, então vou [como músico] tocando à medida em que a poesia vai descendo. É uma tentativa visual de produzir som, de fazer o toque de sino em silêncio com a própria palavra, como se fosse uma tradução do toque, por meio do verbivocovisual [integração do verbal, do visual e do sonoro].
O dobrado é um dos tipos de toque de sino, que é quando ele dá uma volta sobre si. Em diversas igrejas [como na Basílica de Congonhas], não é possível dar esta volta, por questão arquitetônica. A palavra “dobrado” se relaciona também com papel, então escolhi o papelão que permite a dobra. Por isso, os poemas estão dobrados. A boca onde está o sino na torre lembra a de uma pessoa. Em nossas bocas há uma espécie de sininho, logo atrás da língua. Nesta performance, essa língua amarela de papelão e polipropeno recita os poemas, sendo que em seu final, já no chão, o último é um convite:
Há sino em cima
desdobramentos
desdobramentos
assino embaixo:
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Por isso, as pessoas assinaram, primeiro em Ouro Preto, e agora em Congonhas. Elas se tornam espectadoras participantes ao serem convidadas, involuntariamente, para esta assinatura, então acaba sendo uma performance quase um Happening, que é um tipo de arte onde há a participação do público de forma experimental e improvisada. Deixei uma caneta ali e as pessoas estão assinando, sem que eu tenha pedido que fizessem isso, podem escrever alguma coisa ou mesmo um poema.
Que outra percepção você teve nesses dois dias recebendo o público no adro da Basílica?
Marcelo Heidenreich – Uma curiosidade é que, no decorrer dos séculos, visitantes de todos os pontos do Planeta deixaram alguma mensagem nas estátuas dos 12 Profetas de Aleijadinho esculpidas em pedra sabão, o que já há algum tempo é proibido. Na performance efêmera com duração de dois dias, uma outra forma de expressão escrita foi permitida no adro, só que sobre o polipropeno estendido desde a torre até o chão do adro da Basílica. Juntamos a profecia de pedra sabão e a poesia contemporânea, dividindo o mesmo espaço. Enquanto os Profetas seguram o filactério de pedra sabão, essa espécie de filactério de plástico permite a participação do público.
Toque dos sinos da Basílica
Às 15h do sábado e do domingo, houve o repique dos sinos da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.
Quando se propôs a fazer este trabalho, Marcelo Heidenreich entrou no grupo de sineiros de Congonhas, que o permitiu absorver conhecimento sobre o ofício, principalmente com Valdeir. Posteriormente, começou a conviver também com o jovem Gabriel, de apenas de 18, sineiro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, mas que atuou na Basílica nesse final de semana, durante a Performance de Arte Visual “S!NOS DOBRADOS”.
A linguagem expressa pelo toque dos sinos é transmitida de geração para geração. Gabriel começou há 1 ano e meio a exercer o ofício de sineiro. “Os toques existem para lembrar que, em breve, começará uma celebração. Os toques mudam conforme o tempo litúrgico. As notas também mudam de uma igreja para a outra. Na Matriz de São José Operário, o som é mais agudo. Considero o da Basílica o mais bonito de Congonhas. Na Sexta-Feira da Paixão, os sinos não soam, em respeito pela Paixão e Morte de Cristo”, explica.
Estudante de Artes Visuais na PUC Campinas, o turista Rafael Alvim Santos România acompanhou a mãe, que fez aniversário no final de semana, na visita às cidades históricas de Minas e aproveitou para estudar a arquitetura que os Mestres do passado deixaram para as futuras gerações como legado. “Fiquei impressionado com o Santuário de Congonhas. É algo grandioso, bem planejado e que faz uma bela leitura do Velho Testamento, com figuras sagradas, humanas e animais”.
“Já criei e participei de intervenções efêmeras físicas de outros artistas, conversando com as pessoas. Desta vez, dei sorte de o artista estar aqui para me oferecer sua leitura sobre sua arte. Acho legal que dá pra trocar ideia e entender melhor. Esta performance explora a palavra, o visual, sentimos o som das palavras e o movimento proposto pelos poemas, como a relação de tudo isso com o tempo cronológico, por meio da alteração na grafia da letra “i”. Essa performance é muito mais interativa, porque permite a interação por meio das escritas que o povo vai deixando, o questionamento e a resposta oferecida pelo artista”, comenta o visitante.
Marcelo Heidenreich espera levar sua performance agora para São João Del Rei, cujo repique dos sinos é considerado por especialistas e sineiros como um dos mais bonitos do País.
Por Secretaria de Comunicação/Prefeitura de Congonhas

