DESTAQUE EM CONGONHAS

Pesquisa pioneira resgata a história da Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Congonhas do Campo no século XVIII

15 de julho de 2025

No último sábado, 12, a pesquisadora Silnara Faustino apresentou a conclusão da sua pesquisa sobre a história da Igreja do Rosário de Congonhas em um evento que fez parte da programação do 30º Festival de Inverno. A pesquisa “Pelas Mãos das Irmãs e Irmãos Pretos” resgata a história da Irmandade do Rosário dos Pretos de Congonhas do Campo no século XVIII. Através de documentos inéditos, revela sua organização, patrimônio e protagonismo negro e feminino.

O evento contou com a participação das Guardas de Congado Rosário e Santa Efigênia, da Guarda de Congado Sereia do Mar, dos capitães Luiz Bento e Carlos Evandro, e da produtora cultural Ângela Bento, uma das responsáveis pelo festejo do Rosário, que integraram a mesa de debates.

O resultado da pesquisa é o artigo “Nosso Rosário”. O estudo revela memória local e registros oficiais, fortalecendo a valorização da herança negra em Congonhas. A pesquisa sobre a Igreja do Rosário foi realizada ao longo de um ano, iniciando-se com o levantamento de fontes secundárias disponíveis na cidade e em sites institucionais, que forneceram informações ainda superficiais. Em seguida, foram consultados documentos como o dossiê de tombamento e, por fim, fontes primárias no arquivo eclesiástico de Mariana, especialmente livros da Irmandade do Rosário dos séculos XVIII e XIX, que permitiram a construção de narrativas históricas com base na análise cruzada dos registros e do referencial teórico.

“Na academia, eu fui orientada a não pesquisar sobre um tema sobre o qual eu não tivesse um distanciamento; me disseram que eu não deveria estudar um assunto com o qual tivesse envolvimento pessoal e, principalmente, emocional; Mas eu nunca ouvi dizerem isso a pesquisadores da história dos brancos e eu não fui ensinada sobre a história dos pretos no meu território. Hoje me sinto honrada em poder mudar essa realidade e levar conhecimento sobre as nossas raízes às escolas do município”, afirmou Silanara Faustino, autora da pesquisa. Exemplares do artigo serão doados ao Museu de Congonhas e à Biblioteca Pública Municipal Djalma Andrade, para que essas informações tão relevantes para a construção social, cultural e religiosa do município não esbarre mais em lacunas provenientes do apagamento histórico sofrido pela cultura negra.

Além do artigo, a pesquisa também foi traduzida em uma oficina de contação de histórias, que aconteceu em escolas localizadas em regiões periféricas da cidade:  na Escola Municipal Dona Maria Oliveira Castanheira, no Quilombo Campinho, na Escola Michael Pereira de Souza, no bairro da Praia, na Escola Municipal Dom João Muniz, localizada no bairro Jardim Profeta e na Escola Rosália Andrade da Glória, na comunidade do Alvorada, onde fica localizada a Capela do Rosário.

A pesquisa “Pelas Mãos das Irmãs e Irmãos Pretos” foi aprovada por meio da Lei Paulo Gustavo, no Chamamento Público de 2023, e contou com financiamento proveniente desse recurso. Todas as contações de histórias realizadas nas escolas incluíram acessibilidade comunicacional, com tradução em LIBRAS. O evento foi finalizado com uma belíssima apresentação das Guarda de Congado Sereia do Mar e uma celebração em conjunto da história e cultura popular dos pretos em Congonhas. O público se juntou ao congado e entoou no ritmo dos tambores cações tradicionais em homenagem à Nossa Senhora do Rosário, que simbolizam resistência e fé desde o colonialismo até os dias de hoje.